A esperança, portanto, não está na conversão da velha forma Estado-nação (que – convenhamos – só deu plenamente certo quando moderada pela fórmula do Estado democrático de direito e em menos de trinta países).

A esperança está nas sociedades que vão continuar desejando experimentar a democracia, por fora das grandes e pequenas pirâmides, em novos arranjos societários de vida e convivência social. Daqui para a frente deveremos experimentar a democracia não apenas no Estado, mas também nas organizações da sociedade (como a família, a escola, a igreja, a corporação – incluindo a universidade e o sindicato -, o quartel, as organizações da sociedade civil, o partido e a empresa hierárquica).

Só assim será possível que uma nova onda democratizante ressurja no médio prazo, incidindo nas novas unidades de governança que surgirão independentemente do Estado-nação centralizador, como as cidades transnacionais, as cidades-pólo tecnológicas, as cidades-regiões, as redes de cidades e outros arranjos comunitários que, assumindo a direção autônoma do seu próprio desenvolvimento, constituirão também novas unidades políticas.

Esta será a terceira invenção da democracia: a desinvenção da fórmula única de democracia sonhada pelos modernos. Serão, necessariamente, muitas democracias e não apenas reproduções do modelo único da democracia representativa.

Augusto de Franco 18/02/2017

Leio o texto na íntegra

A democracia sob ataque terá de ser reinventada

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Fonte: http://www.elsalmon.co

“Em nenhum outro aspecto da vida, o horizonte de tempo do capitalismo é um problema mais agudo do que na área do ambiente global… O que poderia fazer uma sociedade capitalista sobre problemas ambientais de longo prazo, como o aquecimento global ou a redução da camada de ozônio?… Usando as normas de resolução do capitalismo, a resposta ao que deveria ser feito hoje para prevenir tais problemas é muito clara – não fazer nada. Por maiores que possam ser os efeitos negativos, daqui a cinquenta ou cem anos, o preço que se paga por provocá-los, no presente, é zero. Se o valor corrente das consequências negativas futuras é zero, então, segundo a lógica econômica vigente, nada deveria ser gasto hoje para prevenir que emerjam aqueles problemas distantes. Mas se os efeitos negativos forem muito grandes daqui a cinquenta ou cem anos, então será tarde demais para fazer qualquer coisa capaz de melhorar a situação, já que qualquer coisa a ser feita naquele tempo poderia somente melhorar a situação num futuro distante, de cinquenta ou cem anos. De modo que, se forem bons capitalistas, os que viverem no futuro também decidirão não fazer nada, não importa quão graves sejam seus problemas. Finalmente, chegará uma geração que não pode sobreviver no ambiente alterado da Terra – mas a essa altura será muito tarde para fazerem qualquer coisa e prevenir sua própria extinção. Cada geração toma boas decisões capitalistas, embora o efeito em rede seja o suicídio social coletivo.”

 

 Lester Thurow, O Futuro do Capitalismo,  1996.

Estourando bolhas de individualismo

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“Nós estamos com dificuldade em investigar como que, dentro de uma cultura, estamos semeando e nutrindo as ações negativas. Isso caracteriza os tempos de degenerescência: os aspectos positivos vão entrando em colapso, não tem mandala, não tem visão, cada pessoa tenta se entrincheirar nas suas próprias individualidades ou pequenos grupos, para tentar resistir a um ambiente hostil e difícil. (…)

Então essas são as contradições dos tempos de degenerescência. Mas temos que entender o que isso não é. Cada pessoa que está atuando dentro disso não é uma pessoa do mal, ela é uma pessoa dentro de uma bolha, que tem um software operando. Ela pode perfeitamente trocar de software e trabalhar para isso. Mas isso também não é o trabalho.

É como se houvesse um ritmo; vem uma consciência coletiva que vai se dando conta disso, vai gerando outro movimento, aquilo vai invertendo e os tempos de degenerescência vão sendo sucedidos por tempos mais benignos. Essa alternância acontece porque as pessoas não tem realmente a fixação; elas estão dentro de bolhas e, por isso, são capazes de transmigrar para coisas melhores.

Por esse lado, vocês vão encontrar muitas pessoas lúcidas se organizando. Agora tem essas metas da ONU, 17 metas da ONU de qualidade, super bonito, não sei por que não tem uma mídia maior nisso. As nações se juntaram para gerar transformações cruciais no âmbito das relações, da igualdade de gênero, da proteção contra a violência, da proteção ambiental, etc. Então articulam metas, articulam algo no nível sutil. Trata-se do nível sutil porque essas metas não são medidas especificas, é uma transformação de consciência. Poderíamos gerar esses sonhos positivos e andar de um jeito melhor, isso seria super importante. É nesse nível sutil que precisamos andar, é a partir desse nível que se estabelecem também os infernos.

Então a ação irada corresponde a isso: não se render às aparências, não considerar que aquilo é assim mesmo, mas trabalhar para que as ações não-virtuosas não tenham êxito. Isso vem desde o ambiente macro até esse ambiente micro, da nossa própria ação, da ação das pessoas que estão ao nosso redor. Vamos cuidado disso: que as ações negativas, que produzem sofrimento para os outros seres, não se estabilizem como ações respeitáveis, para que aquilo não vire um processo de funcionamento aceitável.”

Lama Padma Samten

Leia na integra:  http://www.cebb.org.br/dissolucao-do-estado/

 

doenca-coronaria

“O homem se sente garantido por uma superabundância de meios dos quais lhe parece normal abusar. Ao contrário de certos médicos sempre dispostos a considerar as doenças como crimes, porque os interessados sempre são de certa forma responsáveis, por excesso ou omissão, achamos que o poder e a tentação de se tornar doente são uma característica essencial da fisiologia humana.

Transpondo uma frase de Valéry, dissemos que a possibilidade de abusar da saúde faz parte da própria saúde” (Canguilhem, 1966/1978, p.162).

Leia no contexto onde foi citado : http://www.redehumanizasus.net/95048-acerca-do-normal-e-o-patologico-de-canguilhem-um-problema-contemporaneo#sthash.i2uMPLVC.dpuf

refugiados

No mundo atual, ser capaz de contribuir para o bem-estar comum por meio do trabalho é como se fosse um privilégio. Neste mundo, a única maneira de construir uma vida parece ser ganhando dinheiro. Não qualquer rendimento, mas uma posição vantajosa e imerecida, um benefício extraordinário produzido à margem do valor que o trabalho gera. São os lucros gerados por grandes empresas através de regulamentos adaptados ou monopólios, que existem apenas por imposição legal, como a propriedade intelectual. São “incentivos” fixados e inflados pelos mesmos executivos que os recebem, ou propinas advindas do acesso privilegiado a determinadas posições e contratos, públicas ou privadas.

Este tipo de riqueza facilmente torna-se cumulativa e gera uma espiral de desigualdade quando o acesso à informação e educação depende da renda pessoal ou quando a competição garante que serviços sejam sistematicamente restritos, como rotineiramente faz o Estado em setores-chave como a energia, as telecomunicações ou na mídia.

Em um mundo de privilégios e propinas tudo parece um jogo de soma zero, onde alguém ganha porque outros perdem. A desconfiança de tudo e todos, instituições e indivíduos, é a norma.

David Ugarte  – https://lasindias.com/manifiesto-comunero  (versão livre)

Emergência

  propriedade-emergente

“Todo sistema vivo ocasionalmente encontra pontos de instabilidade,
nos quais algumas de suas estruturas se quebram e novas estruturas,
ou novas formas de comportamento, emergem.

A emergência espontânea de demanda
de novas estruturas e novas formas de comportamento –
é um dos marcos da vida.

Este fenômeno, geralmente simplesmente chamado de ‘emergência’, tem sido reconhecido como a base do desenvolvimento, aprendizagem e evolução.

Em outras palavras, criatividade – a geração de formas que sejam constantemente novas – é uma propriedade chave de todos os sistemas vivos.”

Fritjof Capra

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No passado, a destruição de seu vizinho poderia ser considerada uma vitória, mas hoje somos todos interdependentes. Vivemos em uma economia global, enfrentamos problemas como as alterações climáticas que afetam a todos nós. Os 7 bilhões de seres humanos vivos hoje pertencem a uma única família humana. Num contexto em que os interesses dos outros são do nosso interesse e nosso interesse é do interesse dos outros, o uso da força é auto-destrutiva.  Dalai Lama

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Por multidão entendemos um projeto plural de organização política. Isso pode ser melhor entendido como uma extensão – ou, de fato, uma pluralização – de três conceitos tradicionais: o povo, a classe e o partido. Multidão não é realmente oposto a esses três conceitos, mas, antes, designa versões plurais, internamente heterogêneas de cada um deles. Frequentemente “o povo”, por exemplo, tem sido usado para referir-se a uma população relativamente homogênea, com a exclusão de outros. O termo “povo inglês”, como usado em discursos políticos, por exemplo, tem designado implícita ou explicitamente uma população branca. De modo semelhante, o termo “classe trabalhadora” tem servido com frequência para nomear todos os trabalhadores, mas principalmente homens que trabalham na indústria. Finalmente, o partido geralmente se refere a uma forma de organização política centralizada, unificada e hierarquizada.

Multidão pretende reconciliar esses termos numa chave plural e democrática: um povo que é heterogêneo internamente e aberto àqueles que estão fora; uma classe que compreende todas as formas de trabalho, assalariado e não assalariado; e uma forma partido horizontal e democrática.

Michael Hardt

economias de compartilhamento 

Existe hoje uma polarização em termos teóricos. Uma visão utilitarista e enraizada no pensamento econômico neoclássico irá conceber a economia do compartilhamento como um sistema onde “agentes racionais” se engajam em relações monetizadas de troca para uso eficiente de bens e serviços. O imperativo é o individualismo, a eficiência e a vantagem desse tipo de relação de consumo.

Uma visão não utilitarista e enraizada na sócio economia pluralista irá conceber a economia do compartilhamento como um sistema onde sujeitos se engajam em relações de produção e troca em razão do pertencimento a uma comunidade e razões não mercantis (honra ou sentimento de dever). O imperativo é o engajamento, a solidariedade e uma lógica de reciprocidade.

Rafael A. F

 

 

augusto

Chamei de transformacionismo à ideologia perversa segundo a qual os seres humanos vêm com defeitos que devem ser consertados por alguma instituição hierárquica (seja uma escola, uma igreja, uma organização militar, uma corporação, um partido, um Estado ou algum tipo de ordem espiritual, seita, sociedade ou fraternidade). Essas instituições seriam, por um lado, espécies de reformatórios para educar as pessoas, quer dizer, ensiná-las, adestrá-las, domá-las; ou, por outro, ambientes para ensejar o seu desenvolvimento interior, colocando-as no caminho da sua evolução mental ou espiritual.

A perversão transformacionista adquiriu na modernidade outras formas, mais explicitamente políticas, a partir da crença de que a transformação das pessoas (no que elas não são) viria com a transformação da sociedade (no que ela não é, por meio da realização de alguma utopia autoritária que afinal “colocaria ordem na casa”). Essa transformação seria promovida pela intervenção consciente de uma militância política, social ou ambiental – sempre aglomerada em organizações hierárquicas – à qual caberia transfundir sua consciência para as massas ignorantes conduzindo-as em direção a um porvir radiante.

Esta ideologia é desconstituída com a aceitação de que devemos ser o que somos e não o que não somos (não há nada de errado conosco), de que não há nenhum lugar para ir a não ser aquele para o qual iremos (e que não pode ser conhecido de antemão por alguma organização de sábios, de seres mais conscientes ou mais evoluídos, possuidores de algum conhecimento superior dos mecanismos imanentes ou transcendentes à história) e de que as redes sociais distribuídas (as pessoas interagindo livremente) não são um instrumento para fazer a mudança mas já são a própria mudança.

Augusto de Franco